As atribuições previstas em lei para os
municípios não são proporcionais aos recursos que recebem. Por causa
disso, os prefeitos têm dificuldades de cumprir com todas as suas
obrigações. Na avaliação da Confederação Nacional dos Municípios (CNM) e
da Associação Brasileira de Municípios (ABM), entidades representativas
das gestões municipais, a União cria legislações que oneram as
administrações municipais com responsabilidades, mas não preveem fontes
de recursos para que os serviços sejam satisfatoriamente cumpridos.
Cuidar da educação, da saúde, do transporte público e do saneamento
básico são algumas das atribuições dos governos municipais. A segurança
pública, por sua vez, é responsabilidade das administrações estaduais. O
papel das prefeituras cresceu com a Constituição de 1988, que
introduziu a descentralização e municipalização das políticas sociais.
Graças a essa nova visão, serviços como o ensino e o atendimento médico
passaram cada vez mais para as mãos dos governos de pequenas, médias e
grandes cidades.
Para Paulo Ziulkoski, presidente da CNM, o problema não é a
descentralização em si, e sim a implementação descriteriosa de
obrigações que vão além da capacidade das administrações locais. "O
Congresso e o governo federal criam leis inexequíveis. A Lei de
Responsabilidade Fiscal (LRF) determina que não se pode criar despesas
sem indicar a fonte de recursos, mas é justamente isso que se faz com os
municípios", disse.
De acordo com Zilulkoski, entre as exigências que as prefeituras têm
dificuldade em atender está o pagamento do piso nacional aos professores
(que está em R$ 1.451 e é reajustado anualmente) e a garantia de que
esses profissionais fiquem fora das salas de aula por período
equivalente a um terço da carga horária semanal, a fim de realizar
planejamento pedagógico. "Para que isso fosse cumprido, seria preciso
contratar mais 330 mil professores além de 1 milhão que temos hoje. Não
há dinheiro suficiente", ressaltou.
Outro gargalo para as administrações municipais é a saúde. Segundo
informações da CNM e ABM, embora as prefeituras tenham obrigação legal
de destinar 15% de seu orçamento para essa área, acabam dispendendo em
média 22% em razão da forte demanda a que precisam fazer face. "Entram
nessa conta exame, vacinação, piso dos profissionais", declarou o
presidente da CNM.
Na avaliação de Eduardo Tadeu Pereira, presidente da ABM e prefeito
de Várzea Paulista (SP), é preciso adequar os recursos municipais ao
volume de exigências feitas às cidades. "Os serviços foram sendo
transferidos para os municípios e o orçamento não necessariamente foi
municipalizado. Há uma concentração do dinheiro nas mãos da União e nos
estados", disse. Segundo ele, há casos em que as prefeituras são
oneradas mesmo em se tratando de serviços que são obrigação dos governos
federal ou estaduais. "Em São Paulo, por exemplo, se o prefeito quiser
ter uma delegacia em sua cidade tem que pagar o aluguel do prédio",
destacou.
De acordo com João Martins, coordenador do Programa Piauí da
organização não governamental (ONG) Care Brasil, de fato existe um
desequilíbrio entre a verba destinada aos municípios e o que é demandado
deles. "Segundo estudos, o governo federal concentra mais de 60% dos
recursos arrecadados em seu caixa. Mas as coisas acontecem é no âmbito
do município; as pessoas vivem em cidades", disse. Para Martins, as
cidades pequenas, com até 15 mil habitantes, enfrentam as maiores
dificuldades. "A demanda por saúde e educação tem a mesma complexidade,
mas há muito menos estrutura. A gestão não é profissionalizada, falta
atratividade para que técnicos se disponham a trabalhar nesses locais",
completou.








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